sexta-feira, 20 de outubro de 2017

OS CASTANHEIROS DO POÇO DO INFERNO

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AC, Trilho na Serra da Estrela (zona do Poço do Inferno)
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A solicitação chegara, inesperada, via correio electrónico. A resposta, perante tão apelativo desafio, só podia ser uma.
O ponto de encontro ficara marcado para Manteigas, uma espécie de presépio em pleno vale glaciar do Zêzere, onde se acertaram os últimos pormenores. Chegados à zona do Poço do Inferno, não muito longe da vila, o primeiro impacto, já adoçado no percurso de acesso, foi de plena aceitação. A vegetação envolvia-nos de tal forma que, por momentos, nem sabia bem como chegara ali, a um vislumbre de portal que nos transportava, quase sem darmos conta, à percepção e à transcendência. Talvez fosse a determinação em me levantar cedo, talvez fosse o filtro, cada vez mais apurado, de investir nas coisas aparentemente simples, em que a arquitectura verde, de tão harmoniosa, convida, de forma irrecusável, à libertação das amarras da alma. Fosse como fosse, mal ali cheguei senti que valia a pena, que estava em casa, na casa que deveria ser de todos nós. Um privilégio esverdeado, mesclado, aqui e ali, por belas e delicadas pinceladas, obedecendo ao sortilégio das primeiras tonalidades outonais.
O percurso, adornado, maioritariamente, por castanheiros, com uma ou outra faia ou um pinheiro a intrometer-se, parecia preparado para os deuses. O chão, atapetado quanto baste pelas folhas precursoras do mergulho em espiral, abafava os passos dos caminhantes, imprimindo-lhes um som peculiar, mas aconchegante. Os sorrisos de satisfação instalavam-se naturalmente, como se cirandar por esta parte da Estrela fosse receita miraculosa.
O tempo passava, sem ninguém dar conta, com os sentidos cada vez mais ligados à arquitectura de troncos e folhas, musicados por um ou outro chilreio, só distraídos com o piscar de olho das castanhas que, numa quase ousadia, espreitavam dos ouriços que enfeitavam o caminho. Ante a promessa duma boa jeropiga no final do percurso, algumas foram mesmo parar à mochila.
Mais abaixo, já perto da zona onde a ribeira de Leandres e o rio Zêzere se abraçam, surge a primeira pausa. Das mochilas saltam acepipes, soltam-se as palavras, a apreciação da jeropiga é consensual: envolvente, matreira, convidativa a mais um trago. Vindos das proximidades, dois cachorros Serra da Estrela, de rabito a dar a dar, chegam-se por perto, despertando carícias e sorrisos. Mesmo ao lado, em discreta sinfonia ancestral, a água da ribeira faz-se ouvir. Ainda faltava fazer a Rota das Faias, a caminho do Covão da Ponte, mas o dia já estava ganho.
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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

ESTAVA MADURA NO RAMO, MAS NÃO A COLHI

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AC, Romãzeira
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Sempre que posso desvio-me dos caminhos principais, apesar de, aparentemente, eles terem largueza, bom piso, luzes, sinais, câmaras, holofotes... Curiosamente é por eles que toda a gente quer passar, sempre cheia de pressa, condicionada por um qualquer chip, como se a vida se resumisse ao momento efémero da sua passagem. E como eles correm!
Eu, mortal em contramão, cada vez tenho menos pressa, confesso. Aprendi que a maturação, para se exprimir da melhor forma, requer a pacificação do tempo, ou seja, muito suor interior. 
Um destes dias, porque sim, passei junto duma velha quinta, quase abandonada. Os muros, sinal de sabedoria do construtor, mantêm uma postura digna, sem quebras, adornados com heras alimentadas pelo tempo. Espreitei. Uma romãzeira, apesar do desprezo a que parecia votada, continuava a pintalgar aquela espécie de refúgio onde, quero crer, outrora alguém descia as escadas, tranquilamente, de cesta na mão, para levar para casa aquela flor outonal.
Mudam-se os tempos e as vestes, mas a espiral das vontades parece a mesma. A minha, num primeiro impulso, foi subir o muro e colher uma romã, mas algo me prendeu. É que, cada vez o sinto mais, não é a romã que temos na mão que importa. O que faz sorrir, interiormente, é a que levamos dentro de nós.
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sábado, 30 de setembro de 2017

O MURO

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AC, Filtro outonal
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Há um sol, ao de leve, que me aquece de mansinho, como se tentasse perpetuar aquilo que é breve, alquimia de poeta que tudo quer abraçar.
Rompe a névoa, aqui e ali, pintalgando conceitos efémeros, como se tudo fosse nada. Vão-se as andorinhas, rendidas ao capricho solar, e eu para aqui fico, tentando amarrar, na tela, o intangível, como se a simplicidade do ciclo da vida fosse quadro para emoldurar.
Sento-me na pedra de granito, altaneira, filtrando a luz que se insinua nas folhas, dando-lhes uma vida única, própria de cada instante. Sinto que, para lá da sinfonia de cores, estamos mal preparados para o que se segue, queríamos a vida sempre à mercê. É por isso que olhamos com desconfiança a velhice, quase não reparando na sabedoria acumulada. É por isso que continuamos a não saber enfrentar a morte, olhos nos olhos, quando é a única certeza que transportamos a tiracolo.
Há um sol, ao de leve, que me tenta iludir na certeza, desafiando-me para a descoberta de outras certezas. E eu, eterno crente na dignidade, como se não houvesse outro rumo, continuo a investir contra o muro, partindo pedra após pedra. Talvez, quem sabe, um dia consigamos saber aquilo que andamos cá a fazer.
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domingo, 24 de setembro de 2017

RECEITA PARA LÁ DAS RECEITAS

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AC, Sebe em busca de livro de reclamações
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Não é todos os dias, mas quase, que isto de ser aprendiz tem que se lhe diga. Quando me levanto, tal o apego à vida, há sempre algo que me condiciona a mente: uma vontade de conjugar bem, a cada dia que passa, os gestos que marcam a minha presença no mundo. Não é nada de dramático, como se tudo dependesse de mim, mas algo devidamente filtrado no tempo, com o toque da simplicidade, do dever feito, como se tivesse bem presente que, dos pequenos gestos, podem germinar pequenos grandes botões de rosa.
Às vezes, reconheço, deparo-me com pessoas que só parecem reagir ao fogo e ao aço. Com o tempo, contudo, aprendi formas de as enfrentar. Sempre olhos nos olhos, nunca em tom desafiante, mas em modo invocador de afectos: dos que se exibem, na luz, mesmo que considerados insuficientes, dos que existem, na penumbra, por trás das muitas cortinas que nos talham o destino. Em modo soft, pois é claro, a não ser que a besta tresande de tal forma que, logo à partida - louvo a honestidade de carácter - fiquemos logo avisados de que, por aquelas bandas, não há terreno por arar. Por demais inculto. 
Vivo no campo, por opção, onde cada tarefa, para ser executada de forma descontraída, sem o peso dum qualquer encargo, implica comunhão com tudo o que nos rodeia. Só assim se compreende que, para aparar parte das sebes que rodeiam a casa, tenha demorado duas manhãs, sem estar a pensar no que ainda falta. E, podem crer, o gozo que isto me dá, sempre acompanhado pelo chilreio da passarada!
O sentido da vida? Cada um tem a sua receita, mas para ela ter validade tem que ser testada no caminho percorrido, sempre numa perspectiva de futuro. Fora dos roteiros oficiais, é claro.
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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O MEU POETA

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Imagem retirada do Google
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Conheço um poeta que é igual a todas as outras pessoas, afinal um poeta é uma pessoa como todas as outras. Contudo, para lá dos gestos triviais, como que refugiando-se na normalidade, há um não sei quê que o trai, talvez o olhar, como se estivesse, continuamente, à espera do seu momento de libertação. E, quando descortina algo que o cativa, que o agarra, é vê-lo partir, sem sair do mesmo lugar, como se, de repente, a realidade ganhasse novos contornos, novas geometrias, como se vislumbrasse um portal para um novo patamar. Subitamente, como se despertasse, dá-se conta de que está perante olhares que o questionam, procurando entender aquela aparente fuga. Nessas alturas apenas sorri, enquanto se despede como se levasse, a tiracolo, algo de precioso.
Conheço um poeta que parece igual a todas as outras pessoas, mas não é. Enquanto os outros tudo fazem para adoçar a realidade, adquirindo, ele tudo faz para lhe dar novos contornos, voando.
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domingo, 10 de setembro de 2017

A PEDRA

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Havia uma pedra, há sempre. Mas aquela, de tão diminuta, prendia a atenção, como se a sua pequenez tivesse algo para transmitir.
Olhei-a. Era cinzenta, baça, sem brilho, aparentemente sem nada de especial. Mas, por mais que a tentasse deixar para trás, ela parecia olhar-me, desafiando a minha percepção das coisas.
Prossegui o caminho. Quando ultrapassei a primeira curva, a pequena pedra, acomodada na mochila, parecia cantarolar. Eu apenas sorria.
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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

CRÓNICA DE FÉRIAS

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As montanhas, pejadas de refúgios e subterfúgios, ao mesmo tempo que, nos cumes, impelem ao voo para lá do horizonte, numa amálgama em que a reflexão ganha outra dimensão, fazem parte de mim, são a minha segunda pele.
De tempos a tempos, contudo, qual apelo da alma onde continua a refulgir, de forma quase indelével, mas persistente, a pegada da memória ancestral, careço de abraçar o oceano, de revigorar-me nas suas águas, deixar que, de forma despreocupada, o grande caldeirão químico onde tudo começou me relembre, de forma  profunda, adornada de poesia, o grande milagre da vida, tecido numa multiplicidade de pequenas coisas. Nesses momentos sinto-me sempre pequeno, mas duma forma maior, como se o círculo da compreensão da vida se completasse.
Este ano foram cerca de três semanas algarvias onde preponderaram o peixe - a carne foi banida - as braçadas no mar, algumas leituras, música quanto baste e... os eternos finais de tarde, numa feliz conjugação em que tempo e espaço cumpliciaram no aconchegar da alma.
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Enquanto estive ausente, e cimentando a máxima de que a vida é eterno desafio, o meu santuário natural, a Gardunha, foi palco das labaredas que, um pouco por todo o lado, estão a dilacerar o pulmão verde deste país. Tudo se renova, é certo, mas é uma dor d'alma ver desaparecer alguns dos meus recantos de eleição. E mais dói quando as razões têm a ver com um verdadeiro barril de pólvora: incúria, desleixo, incompetência e premeditação.
Na próxima Primavera, embora de forma tímida, o verde irá irromper de novo, numa eterna ode à esperança. Mas a mãe Natureza, podem crer, começa a ofegar de cansaço, farta de tanta patifaria. 

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quarta-feira, 26 de julho de 2017

ABRAÇAR, NATURALMENTE, QUANDO A ALMA SE SENTE QUENTE

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Sempre soubeste das minhas idas e vindas, da minha necessidade de questionar, de respirar, em busca de encontrar sentido em cada partícula, em cada átomo. Isso faz parte de nós, sempre fez, foi assim que construímos a nossa cumplicidade. Tu, mais exposta ao sol, nunca tiveste necessidade disso, mas sempre respeitaste, por mais efémeros, os meus mergulhos interiores.
Gosto de partidas, mas adoro as chegadas. No regresso, quase sempre à hora certa, o meu sorriso sempre deparou com o teu sorriso, os meus segredos sempre foram teus. Ontem, apesar de sorrires, havia nuvens no teu semblante. O canteiro das roseiras parecia abandonado, entregue às ervas, e na parte mais resguardada do jardim, por trás da casa, onde sempre gostámos de sentir a magia do final do dia, desta vez não havia mesas nem cadeiras.
Olhei-te nos olhos e percebi. Algo te agredira, profundamente, algo te indignara. Ainda pensei dizer-te para não te preocupares, em como era vão o eco das coisas medíocres, efémeras, mas a hora não era de palavras. Abracei, profundamente, a tua fragilidade, sabendo muito bem o quanto eras forte. Estavas apenas a precisar dum abraço.
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domingo, 23 de julho de 2017

A VOZ DOS (INCONTÁVEIS) SILÊNCIOS

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Muito da essência humana, por mais que brade a diversidade de pretensos pastores, tem a ver com sobrevivência. Ciclicamente vão aparecendo algumas vozes, inconformadas, pugnando por um patamar mais elevado, mas depressa os detentores do poder, apelando à zona de conforto das massas, reagem. Nada mais eloquente, para ilustrarmos essa ideia, que socorrer-nos das palavras do príncipe de Salina, personagem do romance "O Leopardo", de Tomasi di Lampedusa: é preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma.
Na nossa vida somos confrontados, amiudadas vezes, com situações de perfeita mediocridade, em que as instituições exigem obediência cega, por mais míope que seja a sua visão. Bem podem bradar os bem intencionados que uma sociedade só poderá evoluir se os seus membros forem pro-activos, com consciência crítica. Na prática, principalmente nos países mais solarengos, isso só nos manuais. E, desde que haja pão e circo, mais um favorzito aqui e ali, as pessoas facilmente vendem a alma ao diabo. E é vê-lo sorrir, o descarado!
O ser humano é o que é, temperado com demasiada dose de egoísmo, mas com uma parte, por mais recôndita, com necessidade de luz. Há quem diga que certos silêncios são sabedoria, que é preciso saber passar entre os pingos da chuva, mas cá para mim, eterno desassossegado, eles apenas moldam a alma no rastejar da cobardia.
Antes que seja tarde, vai sendo tempo de darmos voz aos nossos silêncios.
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sábado, 15 de julho de 2017

ETERNA FALHA

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Fotografia de AC
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Há algo que impele, para lá do torpor, 
há algo que resiste, apesar da dor, 
há esperança que se insinua, para lá da cor, 
há recobro que se aloja, seja lá como for. 
Depois... dar sentido à palavra amor.
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sábado, 8 de julho de 2017

JULHO

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Pintura de Barbara Issa Vagnerovà
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Quando Julho atingia a maioridade, num ritual de espera pelos melhores dias, temperado no suor de muitos meses, as colheitas começavam a jorrar alegria pelas ruas, num festim de abundância. 
Nesses dias, aproveitando a tolerância, costumavas vir sentar-te, à tardinha, no banco sobranceiro à grande árvore, onde a garotada, deliciosamente ingénua, mostrava habilidades e travessuras, num jeito muito próprio de abraçar a vida. Tranquila, de livro na mão, sorrias do entusiasmo dos outros, mas nunca te atrevias a sair do teu banco.
Um dia, talvez quando o odor das flores de tília mais se insinuava, pedi-te que me falasses do livro. Sorriste – sempre te vi a sorrir - e mostraste-me a capa: As Aventuras de Tom Sawyer. Depois, num gesto delicado, espontâneo, perguntaste-me se o queria ler.
Esse Verão nunca mais foi o mesmo. Eu comecei a ler o livro, tu começaste a acompanhar-me, quase à socapa, na descoberta dos ninhos, do nome dos insectos, a diferenciar o canto das aves, a saber o nome dos peixes que habitavam a ribeira.
De vez em quando ouvia-se o ecoar do teu nome, e tu lá ias. Quase sem nos darmos conta, tu davas corpo, a cada dia que passava, às palavras do livro, enquanto eu, como se me redescobrisse, aprendia a pintar o mundo com novas cores.
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sábado, 1 de julho de 2017

MÁ SORTE

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Sónia Reis, Amarras
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Na pequena aldeia já todos se tinham recolhido, fazendo contas à vida. Lá fora pareciam felizes, contentes com a sua existência - andavam, numa azáfama, a preparar a festa do padroeiro - mas recolhidos, enquanto cogitavam, um nome era transversal a todas as conversas, quase de forma inconsciente: o de João Afoito, executor da agenda do barão. Todos sabiam do seu poder, todos sentiam na pele o preço de estar de bem com ele. Servil, até à medula, para quem lhe dava ordens, transfigurava-se na sua aplicação, como se a salvação da alma dependesse da sua obediência. E, aí, era cínico, frio, alicerçado numa fidelidade canina.
João Afoito, contudo, não sentia paz. E, de quando em vez, talvez para apaziguar a consciência, convidava um ou outro peão mais influente para uma petiscada. Copo daqui, copo dali, as palavras começavam a brotar, embora comedidas. O Afoito tentava debitar insinuações de humanidade, esboçando recompensas a quem o entendesse, os peões sentiam-se protegidos por merecerem a sua atenção. A sombra, contudo, era fiel testemunha do subtil amordaçar.
Um dia, no largo da ribeira, onde todos se encontravam ao fim da tarde para dois inofensivos dedos de conversa, o Aranha, que já tinha bebido uns copos na adega do compadre, começou a questionar as amarras do barão e do capataz, o João Afoito. Silêncio. Todos ouviam, mas o olhar, não fosse interpretado como de concordância, afastava-se noutra direcção. E, quase em murmúrio, naquele dia regressaram mais cedo a casa.
O João Afoito, por beneplácito de alguma alma caridosa, depressa soube o que se passou. Ouviu, mas dele nada transpareceu.
A aldeia voltou à sua azáfama, benzida no ouvir e calar, em prol do pão de cada dia. E nem mesmo quando o Aranha, personagem bafejada pela má fortuna, apareceu afogado num poço, se atreveram a endireitar as costas. Para rematar o caso, ficaram, qual etéreo epitáfio, as palavras da Ti Ana do moleiro:
- Coitado, nunca teve sorte nenhuma.
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domingo, 25 de junho de 2017

ESCADAS DE MEMÓRIAS, MEMÓRIAS EM ESCADA

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Hélio Pereira, Piódão
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As coisas não são, nem nunca serão, o que eram. Cada momento, para fazer sentido, carece de constante alimento, eterna reformulação do sentir e, por necessária cumplicidade, de se fazer sentir. Uma conquista no caminho trilhado, passada a euforia, não é mais do que isso, mera referência duma ideia que, mal a vaidade assoma, se esvai por entre os dedos. E tudo parece ficar, novamente, sem sentido.
Ontem, enquanto subia os degraus de xisto, temperados com o doce aroma das flores, lembrei-me de ti, avó, de quando falavas, sorridente, dos amenos fins de tarde de verão. Descias as escadas, confiante, de cântaro na mão, em direcção ao fontanário, onde sabias que te esperavam os olhos do teu amado. Fazias de conta que não o vias, mas os teus gestos, por mais que os tentasses domar, denunciavam-te. E, sem te dares conta, era apenas isso que ele queria, um pequeno sinal para dar corda aos seus sonhos.
Gosto da escadaria, sempre gostei. Mas, avó, sem a tua memória, adornada de doces e delicados sorrisos, ela jamais seria o que é.
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domingo, 18 de junho de 2017

ROSMANINHO

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Fotografia de AC
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Surgiste, um dia, vinda do nada, como se as coisas acontecessem por si. Olho vivo, polvilhado com pó de estrelas, tentavas ocultar, em vão, anseios e sonhos, como se viver fosse coisa proibida. 
Descobriste, a pouco e pouco, que não. Quando, nas manhãs aconchegantes de Junho, começaste a respirar o aroma do rosmaninho, sentiste, finalmente, que as amarras estavam dentro de ti.
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sábado, 17 de junho de 2017

CEREJAS

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Fotografia de AC
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São elegantes, aveludadas, saborosas, com o tamanho certo para se deglutirem, epicuramente, sem vontade de parar. São viciantes, no seu sabor único, despoletando emoções difíceis de definir, como se cada uma transportasse, dentro de si, a sensualidade dum corpo à medida, envolvente, filtrado em mil promessas.
Durante um mês, mês e meio, a cereja foi rainha, congregando todo o género de atenções e mimos, qual oásis ao estender da mão.
Já se despedem, contudo, as cerejas, abrindo portas aos exageros do estio. Como qualquer ser único, gostam dum tempo só para si.
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quinta-feira, 15 de junho de 2017

NA CASA DA MÚSICA

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Fotografia de AC
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O dia avançava, qual farol condicionador de todos os gestos, enquanto me dirigia para o meteorito. Ousei entrar. 
As linhas seduziam, como se desvendassem o segredo da amálgama entre o linear e o complexo, parecendo esbater distâncias interiores, por mais irresolúveis. Deixei-me ir, por uma vez gostei que me conduzissem. E valeu a pena.
Quando os acordes começaram a dar sinal de vida, prometendo novas telas, acomodei-me no assento. Depois, deixando na penumbra toda a transpiração do executante, como se tudo fosse natural, cada instrumento deu o melhor de si, como se os instrumentistas fossem mero adereço. E as telas começaram a insinuar-se, renovando-se a cada instante, como se tudo fosse uma história ao nosso alcance, escrita com as vivências e os anseios de cada um.
No final, o aplauso merecido para os músicos residentes da Casa da Música, no Porto, verdadeiros efabuladores da essência humana. Isto é cultura.
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sexta-feira, 9 de junho de 2017

CRÓNICA QUASE CANINA

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Fotografia de AC em modo desfocado
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Fim de tarde, quase lusco-fusco. Os verdes competiam entre si, qual deles o mais maduro, embalados pelo canto da passarada. De repente, por entre adornos de folhas... a cor. O que era aquilo que, de repente, prendia as atenções? Um pêssego? Um damasco?
O Lucky, que rondava por ali, virou costas à curiosidade, sem qualquer latido, máximo sinal de desprezo. Por ali não havia ossos, apenas um desajeitado de câmara na mão.
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sábado, 3 de junho de 2017

QUASE COMUNHÃO, QUASE TRANSGRESSÃO

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AC, Apanhado
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Manhã de domingo. O dia insinuava-se prazenteiro, convidativo para mergulhar, mais uma vez, em plena natureza, comunhão que se pretende habitual. 
Após descontraído pequeno-almoço, com o olhar a navegar para lá da vidraça, conjecturando sobre os múltiplos verdes, um último olhar para a mochila, preparada de véspera: calçado adequado,  boné, máquina fotográfica, reforço alimentar. Tudo parecia conforme.
Em plena serra, movido pela busca de novos percursos - recompensado, aqui e ali, com novos ângulos de perspectiva - os sentidos prendem-se, de repente, num leve rumor, que se insinua, em harmonia com o silêncio, num cantar muito próprio, pleno de vida, como se cada partícula de som, por mais ínfima, parecesse transportar, consigo, uma tarefa específica, como se cada átomo fosse determinante na composição do puzzle: era uma nascente que ensaiava, livremente, os primeiros passos na encosta.
Descoberta a tela, o apelo ao ficheiro interior surge, de imediato, despoletando um "guardar como" em constante alerta. Depois, sem pressas, as mãos abraçam a água, tentando perpetuar, num acto espontâneo, natural, o afago da frescura líquida, como se de benfazeja auscultação se tratasse.
A água prossegue, contornando obstáculos, respeitando, de forma natural, a lei da gravidade. Também eu, ser que se compraz em cultivar a dúvida, prossigo encosta abaixo, de bem com a vida. Mas, ainda assim, dessincronizado com algumas leis que regem os homens.
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sábado, 27 de maio de 2017

CANÇÃO DE DESPERTAR

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Hélio Pereira, Fraga da Pena (Serra do Açor)

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Os aromas de Maio, polinizadores, desassossegavam a alma, despertando sensações enfeitiçadas pelo mais puro instinto de vida. Surgiam canções, poemas, gestos a esboçar toques na pele, como se a vida tivesse que ser agarrada ali, no momento, como se nada mais importasse.
À tardinha, quando os aromas mais se insinuavam, mergulhava nas águas, ainda frias, e reformulava a tela, ainda por concretizar, invocando as deusas do riacho. Depois, mais apaziguado, escrevia um poema, tentando colorir aquilo que me escapava, não por entre os dedos, mas pelo desejo da pele tocada.
Assim eram os dias, no longínquo esboço de paraíso, em que tentava desenhar, no mais puro de mim, o rosto da desejável partilha.
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sábado, 20 de maio de 2017

A CARCÓDIA

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Hélio Pereira, Foz d'Égua (Arganil)
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Os alvoreceres ainda eram tenros, com as cores pouco definidas, mas já nessa altura o olhar se perdia no longe, ainda que a espaços.
Nas tardes de estio, quando o tempo sorria para todas as vontades, pegava no canivete do avô e, toscamente, esculpia um casco de barco na carcódia que subtraía dum qualquer pinheiro. Depois, com cuidado, afiava um pauzinho, perfurava uma folha de castanheiro e espetava-o no centro da minúscula nave. Faltava a mensagem, escrita numa folha do caderno da escola. Guardado o lápis, dobrava o papel e acomodava-o no barco, qual sonho a adornar o dia, e libertava-o, na corrente, como se fosse o anúncio do seu passaporte para o mundo.
Mais tarde, quando os pais o levaram, de mala a tiracolo, para o deixar num colégio, "para se fazer homem", o último olhar foi para o fio de água. Talvez, um dia, as malas da sua vida abarcassem os sonhos que enviara, em plena nudez, nos pequenos pedaços de carcódia.
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Hélio Pereira, Foz d'Égua (Arganil)
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sábado, 13 de maio de 2017

ELOGIO DAS COISAS SIMPLES

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AC, Duplo abrigo (da minha lenha e das andorinhas)
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Não sei com quem aprendeste, mas escolhias sempre as manhãs para te mostrares, em constante movimento, cuidando das coisas que embelezavam o teu dia. 
Recolhias-te, descansavas, cuidavas das pontas soltas. Regressavas à lida a meio da tarde, infatigável, e só abrandavas quando o rosmaninho e o alecrim destilavam o melhor que tinham, como que a despedir-se do sol e das cotovias. Descansavas, então, na varanda florida, enfeitada de cravos e manjericos, respirando os aromas modelados pela brisa morna com que trauteavas, sorridente, os simples acordes da vida.
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sábado, 6 de maio de 2017

PRINCESAS, PEDRAS, PÁSSAROS E LENDAS, O MARAVILHOSO PARA LÁ DAS TENDAS

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AC, Gardunha
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Em tempos que já lá vão, havia uma princesa moura, muito bonita - contavas tu, enquanto me aninhava, encantado, no calor do teu colo - que costumava passar por ali, nos fins de tarde, lamentando a ausência do alaúde e do bendir. Então, perante tão sentido carpir, toda a passarada da Gardunha se reuniu, em assembleia, para debater sobre a melhor forma de apaziguar o lamento da princesa. Decidiram cantar por turnos e, não fosse alguém esquecer o combinado, confiaram tudo às Pedras da Memória.
Melros-azuis e rouxinóis, cotovias e piscos, ferreirinhas e pintassilgos, e outros que tais, que esvoaçavam por cima das pedras, nunca mais se esqueceram do protocolo, embalando a princesa moura em naturais cantares, fazendo-a sentir como se aquela fosse a sua verdadeira casa. 
Ainda hoje, quando alguém passa por ali, e se estiver atento, as pedras parecem querer dizer-lhe algo. A passarada por lá continua, cumprindo a decisão da ancestral assembleia, apenas falta quem a ouça e sinta como a princesa moura.
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domingo, 30 de abril de 2017

PORTAL

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Fotografia de AC
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Não ia lá muitas vezes, mas quando o fazia sentia sempre necessidade do mesmo ritual.
As certezas, portadoras das pequenas vaidades, iam ficando pelo caminho. Quando chegava junto da sentinela, guardião granítico esculpido pelos elementos, já a mente se começara a misturar por ali, mergulhada em linguagens só acessíveis ao mais profundo da alma. Olhava para o anfitrião, fazia-lhe um aceno, quase reverencial, movido pelo respeito, e depois prosseguia, sem pressa, tentando decifrar o silêncio das plantas e das pedras, das melodias que entoavam à passagem do vento. 
Sentia-se longe, muito longe. Quanto mais se afastava mais se sentia perto de si, do seu âmago, da percepção das pequenas coisas, num quase vislumbre da arquitectura do universo. Por ali ficava, refém duma nova ordem das coisas, até a alma ficar saciada.
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quinta-feira, 27 de abril de 2017

25 DE ABRIL

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Imagem retirada da Internet
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Há três dias as palavras surgiram, espontâneas, com vontade de voar, mas ficaram resguardadas, partilhadas apenas com meia dúzia de amigos. Alguém, contudo, pediu que as publicasse. Tive que as soltar.
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Há uma luz que refulge, sulcando as trevas
Há um gesto que renasce, fazendo o dia
Há um canto que se ouve, quase em murmúrio
Há um despontar de vozes, quase melodia.
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sábado, 22 de abril de 2017

RIBEIRINHO

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Fotografia de AC
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Sei donde vens, não sei para onde vais. Nos dias que me vão iluminando, cada vez mais de rejeição à sombra, basta-me que te mexas, que circules, que não deixes de andar. 
Não te percas em delongas, que te fazem perder o norte, mas acaricia quem precisa. Essas são marcas que, quando sentidas, poderão mudar um desígnio. Honra, portanto, cada gesto. Se, entretanto, chegares a alguma enseada apaziguadora, que te tente a ficar, não te esqueças das tuas origens. Serão elas que, passada a euforia, te darão a sustentação e o equilíbrio necessários para perceberes se chegaste, ou não, à foz do teu destino.
Vai, não pares. A vida espera por ti.
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terça-feira, 18 de abril de 2017

SUBIDA À GARDUNHA

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AC, Gardunha
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A subida, sempre a pé, era árdua, exigindo do caminhante determinação e boa forma.
Ultrapassados os cerejais, com o fruto, recém-nascido, a irromper para lá da flor, a inclinação acentua-se. E nem os castinçais - manancial de matéria-prima para os últimos cesteiros de Alcongosta - com a folhagem a querer romper, amenizam o esforço.
O granito, austero, começa a assomar, conferindo diferentes contornos à caminhada. Para lá de um ou outro pinheiro, as giestas, pintalgando a paisagem de branco e amarelo, começam a predominar, cedendo, a pouco e pouco, o lugar à vegetação rasteira, com pacto com todo o tipo de ventos. O granito, omnipresente, mantém-se fiel, qual guardião duma outra dimensão. O horizonte alarga-se, a cada passo, numa visão panorâmica que nos convida, muito lentamente, a rodopiar, a desafiar as amarras do tempo. Uma leveza profunda, imune ao cansaço, começa a insinuar-se e, quase sem nos apercebermos, sentimos vontade de abraçar. Chegara a hora de falar com os deuses.
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AC, Gardunha, com Marateca ao fundo
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quarta-feira, 12 de abril de 2017

VERSATILIDADE

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AC, Cerejais no Vale do Alcambar, Gardunha
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Dantes havia soutos, prevalecendo a frugalidade da castanha, enquanto se consolidava o estatuto cimeiro da madeira do castanheiro, rija e durável como poucas, transversal a muitas gerações. Agora, no advento da cerejeira, as encostas de parte da Gardunha, em socalcos, ficaram mais suaves, trazendo outra cor e sabor a quem respira aqueles ares.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como cantava o poeta de um olho só, em busca de avença. As gentes locais, agora, já não se arrogam da cepa do castanheiro, apenas os possuidores de memórias de antanho teimam em lutar pela divisa. A hora é da cereja, saborosa e inspiradora, com boa cotação nos consumidores.
Com quantas varas se consolida a palavra "mercado"?
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Adenda, após vários comentários: Gosto da paisagem, aprecio o esforço daqueles que se empenham em plantar, mesmo que subtraindo, cada vez mais, ao espaço natural da serra; rejuvenesço nas cores dos cerejais nas diferentes estações: no branco floral na Primavera, logo seguido dum verde novo; no rubi dos frutos, com um sabor inigualável, pintalgando o bolo tecido em verde maduro; o multifacetado das cores outonais, em que as folhas se desafiam na procura de novas tonalidades... Não podia, contudo - e fica a dívida paga - de deixar de recordar as gerações de pessoas que conviveram com outra realidade, em que o castanheiro era primordial. É que nunca seremos nada sem as nossas memórias.
Tudo muda, é certo, e muito bom será se as coisas mudarem para melhor. Comer, à tardinha, umas cerejas colhidas da árvore continua a ser, e de que maneira, uma experiência única.


Uma Feliz Páscoa para todos!
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sábado, 8 de abril de 2017

EU, TU, NÓS

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Pintura de Barbara Issa Vagnerovà
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Trauteando uma música do Abrunhosa, eu estou aqui. Logo, tu estás aí, ou ali, ou além. Seja como for, estás.
Olhemos em volta. Estejamos onde estivermos, há sempre algo a delimitar o perímetro, a povoar a área, a preencher o volume. A dimensão dos números, a ter algum interesse, apenas depende de nós, da capacidade que tenhamos para enfrentar, ousar, redimensionar ou relativizar, toda a chuva de meteoritos informativos que invade, constantemente, a nossa órbita. E é dentro desta premissa que tudo acontece, que se consagra aquilo para que nascemos, nesta complexa amálgama química designada por vida, eterno labirinto especulativo.
Ontem, quando passei por ti, pareceste-me vagamente preocupada, receosa, desassossegada. Hoje, quando te olhei, a aura da tua convicção ameaçava o cerzir das fronteiras, sempre maleáveis, que acordámos convencionar. Cheguei a tentar-me no porquê, mas para quê? Por ora apenas interessa o que vislumbro, o que pressinto. Quando resolveres partilhar o que transportas, talvez tenhamos que alargar a linha do horizonte. Bem vistas as coisas, e por mais paradoxal que pareça, filtrando a pressa que nos tentam incutir temos todo o tempo do mundo. Para nós.
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domingo, 2 de abril de 2017

O FORJAR DAS ASAS

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Pintura de Margarida Cepêda
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Quando chegava o verão
Sentavas-te, à tardinha
Debaixo da figueira
Onde a brisa, suave
Anunciava o rumor das cotovias.
Então pegavas, delicada, na minha mão
E contavas, baixinho:
Era uma vez um potrinho
Que adormecia, feliz
A ouvir as histórias do vento...
Sentia-te perto
E o tempo
Adormecido no cantar do ribeiro
Parava, enlevado, para nos ver.
Assim eram os dias 
No tranquilo paraíso
Em que desenhavas, minuciosa
O crescer das minhas asas
E eu sentia, maravilhado
O vigor do teu voar.
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terça-feira, 28 de março de 2017

QUADRAS À SOLTA - NA RUA DA MINHA TIA

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"La poesía es algo que anda por las calles. Que se mueve, que pasa a nuestro lado. Todas las cosas tienen su misterio, y la poesía es el misterio que tienen todas las cosas. (…) Por eso yo no concibo la poesía como una abstracción, sino como una cosa real, existente, que ha pasado junto a mí."
Federico Garcia Lorca
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Tendo como pano de fundo as palavras de Lorca, o Fundão, por estes dias,  está a vestir outra roupagem. De 19 de março a 4 de abril, com o patrocínio da União Europeia, através do seu programa Europa Criativa, esta pequena cidade do interior está a colocar no terreno o evento "Poesia na Rua", que se desenrola, em simultâneo, em Guadalajara (Espanha), Grenoble (França) e em Cologno Monzese (Itália).
Instado a escrever algo para um grupo de cerca de 100 crianças levar à cena, saíram-me estas quadras, todas à solta, onde se pretende recriar uma rua fantástica, maravilhosa - os miúdos simularão mesmo uma rua, povoada pelas personagens das quadras - onde tudo pode acontecer. Oxalá eles se divirtam.
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Na rua da minha tia
Há constante descoberta
Espreitam estrelas p’la janela
Mesmo quando o sol aperta.
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Na rua da minha tia
Há um burro a ladrar
Um sapato a dizer rimas
Um caracol a sprintar.
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Na rua da minha tia
Há um leão voador
Rabisca planos de voo
Debaixo dum cobertor.
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Na rua da minha tia
Os cavalos sentam-se à mesa
Pedem um fardo de palha
Com toda a delicadeza.
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Na rua da minha tia
Há baleias a passar
Engomam as conversas todas
Sem nunca as arranhar.
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Na rua da minha tia
Há formigas d’encantar
São todas namoradeiras
Todas gostam de dançar.
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Na rua da minha tia
Há um tapete de velas no ar
A desenhar mil aventuras
Com as aves sempre a remar.
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Na rua da minha tia
Os polícias andam descalços
Os sonhos são verdadeiros
Os ladrões são todos falsos.
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Na rua da minha tia
A chuva não cai no chão
Faz piruetas nos telhados
Em forma de coração.
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Na rua da minha tia
As borboletas usam redes
Para apanhar os poemas
Que respiram nas paredes.
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Na rua da minha tia
Há um homem muito elegante
Conta memórias a toda a gente
Que herdou dum elefante.
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Na rua da minha tia
Há uma quadra em cada flor
No aroma de cada uma
Se sente a palavra amor.
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Na rua da minha tia
Há bailes de adivinhas
As respostas chegam p’lo ar
Trazidas por joaninhas.
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Na rua da minha tia
Todos passam da cepa torta
As abelhas, quando chegam
Deixam mel em cada porta.
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Na rua da minha tia
Os dragões não têm asas
Dão passinhos de balê
Enquanto pintam as casas.
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Na rua da minha tia
As janelas abrem p‘ró mundo
Quanto mais a gente a olha
Mais a rua não tem fundo.
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Adenda, pós actuação: A miudagem portou-de bem, interpretando a filosofia da coisa da melhor maneira, de tal forma que, no final da sessão, por entre efusivos parabéns, foram convidados para apresentar "Na Rua da Minha Tia" na sede do Agrupamento de Escolas, no dia aberto à população. Em finais de Maio eles lá estarão.
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sábado, 25 de março de 2017

SAUDADE

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Havia um monte. E uma árvore. E uma fonte. Vindo de longe, movido a saudade, ouvia-se um lamento. Que fazer? Pegou nas lembranças, envolveu-as num ramo de flores e foi, de coração apressado, ao encontro dela.
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terça-feira, 21 de março de 2017

LEVE BREVETA, PROFUNDA SONATA

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Pintura de Barbara Issa Vagnerovà
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Vá, dá-me a mão. De que tens medo? De parecer algo que não controlas? De te sentires fora da corrente daquilo que os outros pensam? Vá, deixa correr o que sentes, o que não dominas, não tenhas receio dos acordes profundos, que ecoam para lá das portas em que te encerraste. Não tenhas pressa. Respira, profundamente, e pensa que estás no alto de uma montanha. És só tu e os elementos, mais os elementos que tu, és apenas um ínfimo ser ao sabor do vento. Sente-o, mas espera que ele amaine. Apercebes-te agora da leve cantilena que ele deixa ao passar pelas pedras? A música é para ti, podes crer, desde que a queiras ouvir. Vá, toca-me. Eu estou, tu estás, estamos vivos. Não é maravilhosa a sinfonia da vida?
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sábado, 18 de março de 2017

MANHÃS DE SÁBADO

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Pessegueiro, Fotografia de AC
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Após uma intensa semana de trabalho na escola - em que, apesar do empenho, tentar levar a bom porto uma nau que alguns persistem em comandar à distância, no conforto dos gabinetes, esquecendo realidades díspares, não é pêra nada doce - as manhãs de sábado são sempre momento de reencontro com o que de melhor habita em nós. Hoje, porém, tal era o cansaço, não houve azáfama obreira, numa eterna tentativa de harmonizar o mundo que nos rodeia à medida da nossa respiração. Não, hoje as mãos não mexeram na terra, houve apenas disponibilidade para curtas andanças para observar o andamento da horta de inverno - alhos, favas, ervilhas, este ano com a novidade de dois chuchuzeiros - e para assistir aos progressos da floração das árvores.
Olho, ao longe, e tudo parece parado. Tranquilidade é coisa que por aqui não falta, de tal forma que até os riscos dos aviões no céu se fazem notar. Lembram-me viagens, novos destinos, alimentam-me a vontade de tudo conhecer. Desenham-se algumas metrópoles, mas o pensamento, obstinado, persiste em transportar-me até aos Andes, ao reino do condor, aliciando-me com a perspectiva de caminhar nos cumes. É apenas um simulacro, eu sei, sempre me atraíram os espaços mais ou menos livres, em que, facilmente, somos confrontados com a nossa essência. E já poucos restam.
Os gatos, guardando a distância necessária para albergarem estatuto independente, já não interferem com a horta. Procuram, aqui e ali, um ratito do campo ou um pássaro desprevenido, mas não parecem muito empenhados. Os cães da vizinhança resguardam-se, silenciosamente, do sol, como que sentindo que não é a hora deles. As borboletas, pelo contrário, esvoaçam com vivacidade, poisando, amiúde, para depositar os ovos numa qualquer planta. A passarada, após o matinal concerto, recolheu, sensatamente, a refúgio seguro. Apenas os pardais, numa azáfama constante, não se coíbem de debicar aqui, debicar ali, enquanto uma ou outra andorinha persiste na construção do ninho.
Manhãs de sábado, eterno depósito abastecedor do meu respirar.
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terça-feira, 14 de março de 2017

PRIMAVERA

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 DamasqueiroFotografia de AC
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Éramos jovens potros
Imunes ao receio
E a primavera de Vivaldi
Em harmonia vibrante
Era o primoroso retrato
Do nosso entusiasmo
No galopar sem freio.
A seara ondulava, sensual
E viajávamos no sonho
Embalados no rumor da aragem
Que escrevia
Nas folhas dos freixos
Sinfonias à nossa passagem.
A paixão das cigarras
Morava dentro de nós
E a linha do horizonte
Meta por conquistar
Era a tela
Dos planos traçados
Dum mundo por desbravar.
Adormecia nos teus braços
Em nocturno de Chopin
Terna e doce vassalagem
E só o romper da aurora
Rebate do mundo lá fora
Quebrava o feitiço da viagem.
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Pereira, Fotografia de AC
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Reedição
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sábado, 11 de março de 2017

MUROS E QUINTAIS, SERVIÇO DE MESA COM AVENTAIS

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Fotografia de AC
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Todos os dias, apesar da pressa em satisfazer compromissos, cada vez mais sobrecarregados na exigência dos outros, há algo à flor da pele que argumenta, que questiona, que reivindica, afastando para lá a ideia do acenar submisso do autómato.
Vivemos num tempo de transição. Esbatem-se, cada vez mais, os ideais humanistas, em que o progresso deveria estar ao serviço do homem. No horizonte, assomando cada vez mais às claras, insinua-se um mundo controlado, vigiado, em que cada manifestação individual, ou social, é escrutinada ao mais ínfimo pormenor. As pessoas recebem cada vez mais brinquedos, acompanhados dum diploma de modernidade, enquanto que, em paragens "sem interesse estrutural", há quem clame por água, por pão, por um qualquer lugar onde não se oiça o sibilar das balas. No fundo, dão eles a entender, deveríamos estar contentes por vivermos para cá do muro.
Vivo, por opção, num local em que todos os dias se ouve o cantar da passarada, se vêem as plantas a crescer, se observam as estrelas no firmamento, convidando a viagens para lá de nós. E sinto-me grato por isso. Mas não, por mais que me cantem loas aos ouvidos, não vivo num mundo à parte. Gosto muito do sítio onde vivo, mas não posso esquecer, nunca, que sou parte integrante dum complexo sistema em que os verdadeiros poderes, cada vez mais na sombra e, a cada dia, mais fortes e subtis, vão muito para lá do cantinho de cada um. Estamos todos no mesmo saco, à mercê de cinzentos desígnios, mas há quem teime em dourar, a todo o custo, a pílula da existência.
Todos os dias, quando me levanto, encho a alma com o canto da passarada, mas nunca me esqueço, mesmo que em modo suave, do mundo em que vivo. Com os afectos a tiracolo, sempre.
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sábado, 4 de março de 2017

OS CONSTRUTORES DE LENDAS

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Pintura de Sergei Aparin
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Não sabiam bem por que o faziam, apenas sentiam que tinham que o fazer. Eram herdeiros de mil lutas, de iguais persistências, em prol de algo que vinha do mais profundo de si. Às tantas, perante tantas pedras no caminho, duvidavam, mas acabavam por prosseguir, deixando, em cada sítio, esboços de coisas diferentes, mapas de inquietudes, incompreensíveis para quem se habituara à segurança de cada coisa no seu lugar. E prosseguiam, prosseguiam sempre, indiferentes aos olhares, aos gestos. Sentiam, há muito, a bússola que os guiava, que os impelia, a estrela que, nos seus sonhos, lhes soprava a palavra liberdade.
Quando chegaram àquele vale, longe da agitação e da cobiça, sentiram que podiam ficar. Não havia colunas, nem torres, nem palácios, apenas algumas ruínas. Era um local simples, tranquilo, desprezado pelos outros, fora do corrupio habitual em que todos se querem ver, em que todos se sentem vivos porque os outros também lá estão. Talvez, ali, conseguissem momentos de pausa, mesmo que curtos, em que pudessem respirar, profundamente, tudo o que os norteava.
Jonas, que liderava o grupo, sabia que não os deixariam ficar ali muito tempo, mas não partilhou, com os outros, os seus receios. Era apenas uma pausa, mais uma, apesar de procederem como se o melhor fosse possível. Talvez fosse desta, pensavam eles. Mas Jonas, lá no fundo, sabia que estavam demasiado habituados a olhar para as estrelas, a tê-las por companhia.
Repararam o essencial das paredes, taparam fendas, deram sentido aos telhados. Escolheram os melhores locais para cultivar, semearam, limparam o terreno circundante. Nos tempos de repouso, em que todos se olhavam, havia sempre alguém que trauteava canções antigas, quem perscrutasse o futuro, quem dançasse, quem contasse histórias...
Começavam a habituar-se, coisa rara, mas um dia chegou um jipe com homens de uniforme. Receberam-nos com o melhor que tinham, tentaram conversar, mas os rostos dos visitantes, fechados, nunca destoaram da farda. Fizeram perguntas, pediram documentos, escrevinharam num livro. À despedida, impassíveis, deixaram a sentença: tinham que partir.
No dia seguinte, bem cedo, despediram-se do vale e empreenderam nova marcha. Um ou outro do grupo ainda olhou para trás, mas por pouco tempo. A herança era pesada, mas teimavam em procurar, sem saber bem onde, um local onde a palavra liberdade fizesse todo o sentido. E, embora em tom de lamento, cantavam, dentro de si nunca deixavam de cantar.
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A MINHA AMENDOEIRA

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Fotografia de AC
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O sol, hoje, parece andar arredio, como que a lembrar aos participantes dos desfiles de carnaval que nem tudo depende da nossa vontade, exigindo alma até almeida aos adeptos de parcas roupas. Hemisfério norte oblige. As árvores, contudo, imunes aos humores de quem decide, parecem já ter nascido de sobreaviso: resplandecem perante a euforia solar, resguardam-se quando as nuvens, em concreta afirmação, se assumem como parceiro a ter em conta.
A minha amendoeira, feliz, vai registando a eterna luta dos elementos. Jovem, plena de viço, pouca importância lhes parece dar. O mundo que conhece, o circundante, presta-lhe vassalagem, sente que tudo parece ao seu alcance. E cresce, vigorosa, plena de flores, enfeitiçando as abelhas das redondezas.
Por perto, em descanso activo na pausa escolar, vou cavando aqui, fazendo um enxerto ali, plantando (um hibisco, desta vez) ali. A amendoeira, ciosa do seu papel de porteira dos assomos primaveris, teima em piscar-me o olho. E só quando, já de máquina fotográfica em riste, lhe devolvo o piscar, é que ela me concede tréguas.
A manhã, por entre naturais divagações, passa num ápice. É tempo de pausa, de banho, de uma boa refeição. No portão, em tom caloroso, o primeiro convidado já se faz sentir.
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sábado, 25 de fevereiro de 2017

GRAAL DA SENHORA DOS CAMINHANTES

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Pintura de Vladimir Kush
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Era tão grande o coração
tamanha a ilusão
que tão grande envolvimento
lhe moldava
cegamente
o pensamento.
Mas, que importava?
Quanto mais caminhava
mais se envolvia
em busca do segredo do abraço
que domasse o andar do compasso
que fizesse iludir o tempo.
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sábado, 18 de fevereiro de 2017

CLARIDADE

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Fotografia de Júlia Tigeleiro
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Há dias em que, quando a claridade chega, teimas em te enfeitar, vestindo as roupas mais claras. 
Dizes, com invejável serenidade, que cada hora tem os seus rituais, que a harmonia se alimenta de estados, de vontades, de comunhões. Se recebes claridade tens que, em humilde postura, ser elo transmissor, que a reflectir para tudo o que te envolve, te rodeia, para a diversidade do mundo que, até ao momento, conseguiste abranger. 
Ainda argumento, em exercício simulado, só para te ouvir, que a luz poderá ter mil leituras, com postos de recepção diferentes, mas tu, leitora atenta da forma e da tonalidade das nuvens, limitas-te a sorrir, persistindo em transmitir a claridade que te envolve. É assim que sentes a vida, é assim que a tentas abraçar. 
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

ACERCA DA LEVEZA DA NEVE, EM MODO CONFORTÁVEL

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Fotografia de AC
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quando cai neve
nada prescreve
nada se deve
tudo parece leve
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quando neva
nada me leva
tudo me enleva
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Fotografia de AC
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

TEAR

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Fotografia de AC
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Gosto do teu sorriso, sempre gostei. Lembras-te quando, em delicioso jogo de permanente descoberta, teimavas em escondê-lo, dissimuladamente, para eu o adivinhar? Era no tempo em que apenas tinhas olhos para o brilho das rosas, inebriada pelo seu perfume, deixando na sombra uma infinidade de pequenos sinais. 
Agora, quando sorris, o toque é mais discreto e profundo. Aprendeste que o dia não é só feito de alvores e ocasos, que é nesse intervalo que muito se conjuga da consistência dos passos, nem sempre embalados pelo canto das aves. Caminhaste tanto que, quando olhas para as coisas, o sorriso, mesmo em esboço, é bordado pelos mais finos teares de compreensão da vida.
Hoje, eterno cúmplice de mil estradas, já não espero pelo teu sorriso. Sei que, para lá dos humores do tempo, acabaremos por nos encontrar em qualquer parte do dia.
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sábado, 4 de fevereiro de 2017

RASTEJAR, ALEGREMENTE, NA AUSÊNCIA DA SEMENTE

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Fotografia de AC
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A semana foi intensa, com as exigências do trabalho a ofuscar qualquer olhar circundante, possível passaporte para amenizar a ditadura da obsessão produtiva. 
A escola, meu local de realização profissional, está a tornar-se, cada vez mais, epicentro único do percurso educacional, relegando a família para segundo plano. Por melhores que sejam as intenções, a verdade é que a maioria dos alunos deste país - há excepções, todos sabemos - apenas convive com os pais ao deitar e ao levantar e, quase sempre, com uma disponibilidade deficitária: à noite estão todos cansados, de manhã é o desagradável despertador a ditar leis, dando o sinal de partida para nova correria. Nas escolas, assumindo múltiplas facetas (professor, pai, psicólogo, enfermeiro, confidente...) os professores - alguns, é certo, mas creio que parte significativa - fazem o que podem, tentando que a compreensão da estrutura da vida faça sentido; lá fora os pais esforçam-se por cumprir as exigências, cada vez mais musculadas, dos horários de trabalho, moldando-se à luta pela sobrevivência, ao mesmo tempo que aconchegam, por mais discreta, a esperança dum amanhã mais desanuviador; os políticos fazem contas às metas, analisando obscuros mapas e gélidas grelhas, procurando ir ao encontro das exigências do verdadeiro poder, que se esconde na sombra, sob um imposto denominador comum: o obscurecer da essência humana; a maioria dos meios de comunicação social, adaptados ao papel de modernos necrófagos, teimam em explorar a miséria das pessoas; discute-se, na Assembleia da República, o incómodo tema da eutanásia, mas os argumentos são mais calorosos que esclarecidos; as alegrias e tristezas da tribo refugiam-se, cada vez mais, em obscuros futebóis, verdadeiro muro das lamentações...
Curiosamente, ou talvez não, e atendendo à efervescência do Facebook, toda a gente parece contente, radiante, a vida parece um mar de rosas. É preciso, acima de tudo, parecer, enquanto, paralelamente, os radicalismos se insinuam, cada vez mais, para lá das sombras.
Lá fora, enquanto escrevo, a chuva não cessa. Já ousei desafiá-la para ver a horta, devidamente protegido, embora não consiga passar por entre os pingos. As ervilhas, os alhos e as favas estão sorridentes, os tempos correm-lhes de feição. E, na mais pura candura, começam a exibir um verde claro, vivo, próprio de quem se quer criar. Sinto a energia positiva a invadir-me, rasgando o meu sorriso. Estava em défice, confesso.
Procuro uma fotografia para ilustrar o texto, mas a semana, amordaçante, não foi propícia à captura de novos olhares. Recorro ao ficheiro e detenho-me numa recente: a entrada da toca dum rastejante. Bem vistas as coisas, talvez os tempos estejam propícios a isso.
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