sábado, 20 de maio de 2017

A CARCÓDIA

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Hélio Pereira, Foz d'Égua (Arganil)
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Os alvoreceres ainda eram tenros, com as cores pouco definidas, mas já nessa altura o olhar se perdia no longe, ainda que a espaços.
Nas tardes de estio, quando o tempo sorria para todas as vontades, pegava no canivete do avô e, toscamente, esculpia um casco de barco na carcódia que subtraía dum qualquer pinheiro. Depois, com cuidado, afiava um pauzinho, perfurava uma folha de castanheiro e espetava-o no centro da minúscula nave. Faltava a mensagem, escrita numa folha do caderno da escola. Guardado o lápis, dobrava o papel e acomodava-o no barco, qual sonho a adornar o dia, e libertava-o, na corrente, como se fosse o anúncio do seu passaporte para o mundo.
Mais tarde, quando os pais o levaram, de mala a tiracolo, para o deixar num colégio, "para se fazer homem", o último olhar foi para o fio de água. Talvez, um dia, as malas da sua vida abarcassem os sonhos que enviara, em plena nudez, nos pequenos pedaços de carcódia.
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Hélio Pereira, Foz d'Égua (Arganil)
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sábado, 13 de maio de 2017

ELOGIO DAS COISAS SIMPLES

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AC, Duplo abrigo (da minha lenha e das andorinhas)
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Não sei com quem aprendeste, mas escolhias sempre as manhãs para te mostrares, em constante movimento, cuidando das coisas que embelezavam o teu dia. 
Recolhias-te, descansavas, cuidavas das pontas soltas. Regressavas à lida a meio da tarde, infatigável, e só abrandavas quando o rosmaninho e o alecrim destilavam o melhor que tinham, como que a despedir-se do sol e das cotovias. Descansavas, então, na varanda florida, enfeitada de cravos e manjericos, respirando os aromas modelados pela brisa morna com que trauteavas, sorridente, os simples acordes da vida.
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sábado, 6 de maio de 2017

PRINCESAS, PEDRAS, PÁSSAROS E LENDAS, O MARAVILHOSO PARA LÁ DAS TENDAS

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AC, Gardunha
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Em tempos que já lá vão, havia uma princesa moura, muito bonita - contavas tu, enquanto me aninhava, encantado, no calor do teu colo - que costumava passar por ali, nos fins de tarde, lamentando a ausência do alaúde e do bendir. Então, perante tão sentido carpir, toda a passarada da Gardunha se reuniu, em assembleia, para debater sobre a melhor forma de apaziguar o lamento da princesa. Decidiram cantar por turnos e, não fosse alguém esquecer o combinado, confiaram tudo às Pedras da Memória.
Melros-azuis e rouxinóis, cotovias e piscos, ferreirinhas e pintassilgos, e outros que tais, que esvoaçavam por cima das pedras, nunca mais se esqueceram do protocolo, embalando a princesa moura em naturais cantares, fazendo-a sentir como se aquela fosse a sua verdadeira casa. 
Ainda hoje, quando alguém passa por ali, e se estiver atento, as pedras parecem querer dizer-lhe algo. A passarada por lá continua, cumprindo a decisão da ancestral assembleia, apenas falta quem a ouça e sinta como a princesa moura.
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domingo, 30 de abril de 2017

PORTAL

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Fotografia de AC
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Não ia lá muitas vezes, mas quando o fazia sentia sempre necessidade do mesmo ritual.
As certezas, portadoras das pequenas vaidades, iam ficando pelo caminho. Quando chegava junto da sentinela, guardião granítico esculpido pelos elementos, já a mente se começara a misturar por ali, mergulhada em linguagens só acessíveis ao mais profundo da alma. Olhava para o anfitrião, fazia-lhe um aceno, quase reverencial, movido pelo respeito, e depois prosseguia, sem pressa, tentando decifrar o silêncio das plantas e das pedras, das melodias que entoavam à passagem do vento. 
Sentia-se longe, muito longe. Quanto mais se afastava mais se sentia perto de si, do seu âmago, da percepção das pequenas coisas, num quase vislumbre da arquitectura do universo. Por ali ficava, refém duma nova ordem das coisas, até a alma ficar saciada.
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quinta-feira, 27 de abril de 2017

25 DE ABRIL

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Imagem retirada da Internet
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Há três dias as palavras surgiram, espontâneas, com vontade de voar, mas ficaram resguardadas, partilhadas apenas com meia dúzia de amigos. Alguém, contudo, pediu que as publicasse. Tive que as soltar.
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Há uma luz que refulge, sulcando as trevas
Há um gesto que renasce, fazendo o dia
Há um canto que se ouve, quase em murmúrio
Há um despontar de vozes, quase melodia.
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sábado, 22 de abril de 2017

RIBEIRINHO

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Fotografia de AC
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Sei donde vens, não sei para onde vais. Nos dias que me vão iluminando, cada vez mais de rejeição à sombra, basta-me que te mexas, que circules, que não deixes de andar. 
Não te percas em delongas, que te fazem perder o norte, mas acaricia quem precisa. Essas são marcas que, quando sentidas, poderão mudar um desígnio. Honra, portanto, cada gesto. Se, entretanto, chegares a alguma enseada apaziguadora, que te tente a ficar, não te esqueças das tuas origens. Serão elas que, passada a euforia, te darão a sustentação e o equilíbrio necessários para perceberes se chegaste, ou não, à foz do teu destino.
Vai, não pares. A vida espera por ti.
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terça-feira, 18 de abril de 2017

SUBIDA À GARDUNHA

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AC, Gardunha
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A subida, sempre a pé, era árdua, exigindo do caminhante determinação e boa forma.
Ultrapassados os cerejais, com o fruto, recém-nascido, a irromper para lá da flor, a inclinação acentua-se. E nem os castinçais - manancial de matéria-prima para os últimos cesteiros de Alcongosta - com a folhagem a querer romper, amenizam o esforço.
O granito, austero, começa a assomar, conferindo diferentes contornos à caminhada. Para lá de um ou outro pinheiro, as giestas, pintalgando a paisagem de branco e amarelo, começam a predominar, cedendo, a pouco e pouco, o lugar à vegetação rasteira, com pacto com todo o tipo de ventos. O granito, omnipresente, mantém-se fiel, qual guardião duma outra dimensão. O horizonte alarga-se, a cada passo, numa visão panorâmica que nos convida, muito lentamente, a rodopiar, a desafiar as amarras do tempo. Uma leveza profunda, imune ao cansaço, começa a insinuar-se e, quase sem nos apercebermos, sentimos vontade de abraçar. Chegara a hora de falar com os deuses.
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AC, Gardunha, com Marateca ao fundo
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quarta-feira, 12 de abril de 2017

VERSATILIDADE

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AC, Cerejais no Vale do Alcambar, Gardunha
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Dantes havia soutos, prevalecendo a frugalidade da castanha, enquanto se consolidava o estatuto cimeiro da madeira do castanheiro, rija e durável como poucas, transversal a muitas gerações. Agora, no advento da cerejeira, as encostas de parte da Gardunha, em socalcos, ficaram mais suaves, trazendo outra cor e sabor a quem respira aqueles ares.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como cantava o poeta de um olho só, em busca de avença. As gentes locais, agora, já não se arrogam da cepa do castanheiro, apenas os possuidores de memórias de antanho teimam em lutar pela divisa. A hora é da cereja, saborosa e inspiradora, com boa cotação nos consumidores.
Com quantas varas se consolida a palavra "mercado"?
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Adenda, após vários comentários: Gosto da paisagem, aprecio o esforço daqueles que se empenham em plantar, mesmo que subtraindo, cada vez mais, ao espaço natural da serra; rejuvenesço nas cores dos cerejais nas diferentes estações: no branco floral na Primavera, logo seguido dum verde novo; no rubi dos frutos, com um sabor inigualável, pintalgando o bolo tecido em verde maduro; o multifacetado das cores outonais, em que as folhas se desafiam na procura de novas tonalidades... Não podia, contudo - e fica a dívida paga - de deixar de recordar as gerações de pessoas que conviveram com outra realidade, em que o castanheiro era primordial. É que nunca seremos nada sem as nossas memórias.
Tudo muda, é certo, e muito bom será se as coisas mudarem para melhor. Comer, à tardinha, umas cerejas colhidas da árvore continua a ser, e de que maneira, uma experiência única.


Uma Feliz Páscoa para todos!
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sábado, 8 de abril de 2017

EU, TU, NÓS

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Pintura de Barbara Issa Vagnerovà
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Trauteando uma música do Abrunhosa, eu estou aqui. Logo, tu estás aí, ou ali, ou além. Seja como for, estás.
Olhemos em volta. Estejamos onde estivermos, há sempre algo a delimitar o perímetro, a povoar a área, a preencher o volume. A dimensão dos números, a ter algum interesse, apenas depende de nós, da capacidade que tenhamos para enfrentar, ousar, redimensionar ou relativizar, toda a chuva de meteoritos informativos que invade, constantemente, a nossa órbita. E é dentro desta premissa que tudo acontece, que se consagra aquilo para que nascemos, nesta complexa amálgama química designada por vida, eterno labirinto especulativo.
Ontem, quando passei por ti, pareceste-me vagamente preocupada, receosa, desassossegada. Hoje, quando te olhei, a aura da tua convicção ameaçava o cerzir das fronteiras, sempre maleáveis, que acordámos convencionar. Cheguei a tentar-me no porquê, mas para quê? Por ora apenas interessa o que vislumbro, o que pressinto. Quando resolveres partilhar o que transportas, talvez tenhamos que alargar a linha do horizonte. Bem vistas as coisas, e por mais paradoxal que pareça, filtrando a pressa que nos tentam incutir temos todo o tempo do mundo. Para nós.
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domingo, 2 de abril de 2017

O FORJAR DAS ASAS

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Pintura de Margarida Cepêda
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Quando chegava o verão
Sentavas-te, à tardinha
Debaixo da figueira
Onde a brisa, suave
Anunciava o rumor das cotovias.
Então pegavas, delicada, na minha mão
E contavas, baixinho:
Era uma vez um potrinho
Que adormecia, feliz
A ouvir as histórias do vento...
Sentia-te perto
E o tempo
Adormecido no cantar do ribeiro
Parava, enlevado, para nos ver.
Assim eram os dias 
No tranquilo paraíso
Em que desenhavas, minuciosa
O crescer das minhas asas
E eu sentia, maravilhado
O vigor do teu voar.
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