sexta-feira, 20 de outubro de 2017

OS CASTANHEIROS DO POÇO DO INFERNO

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AC, Trilho na Serra da Estrela (zona do Poço do Inferno)
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A solicitação chegara, inesperada, via correio electrónico. A resposta, perante tão apelativo desafio, só podia ser uma.
O ponto de encontro ficara marcado para Manteigas, uma espécie de presépio em pleno vale glaciar do Zêzere, onde se acertaram os últimos pormenores. Chegados à zona do Poço do Inferno, não muito longe da vila, o primeiro impacto, já adoçado no percurso de acesso, foi de plena aceitação. A vegetação envolvia-nos de tal forma que, por momentos, nem sabia bem como chegara ali, a um vislumbre de portal que nos transportava, quase sem darmos conta, à percepção e à transcendência. Talvez fosse a determinação em me levantar cedo, talvez fosse o filtro, cada vez mais apurado, de investir nas coisas aparentemente simples, em que a arquitectura verde, de tão harmoniosa, convida, de forma irrecusável, à libertação das amarras da alma. Fosse como fosse, mal ali cheguei senti que valia a pena, que estava em casa, na casa que deveria ser de todos nós. Um privilégio esverdeado, mesclado, aqui e ali, por belas e delicadas pinceladas, obedecendo ao sortilégio das primeiras tonalidades outonais.
O percurso, adornado, maioritariamente, por castanheiros, com uma ou outra faia ou um pinheiro a intrometer-se, parecia preparado para os deuses. O chão, atapetado quanto baste pelas folhas precursoras do mergulho em espiral, abafava os passos dos caminhantes, imprimindo-lhes um som peculiar, mas aconchegante. Os sorrisos de satisfação instalavam-se naturalmente, como se cirandar por esta parte da Estrela fosse receita miraculosa.
O tempo passava, sem ninguém dar conta, com os sentidos cada vez mais ligados à arquitectura de troncos e folhas, musicados por um ou outro chilreio, só distraídos com o piscar de olho das castanhas que, numa quase ousadia, espreitavam dos ouriços que enfeitavam o caminho. Ante a promessa duma boa jeropiga no final do percurso, algumas foram mesmo parar à mochila.
Mais abaixo, já perto da zona onde a ribeira de Leandres e o rio Zêzere se abraçam, surge a primeira pausa. Das mochilas saltam acepipes, soltam-se as palavras, a apreciação da jeropiga é consensual: envolvente, matreira, convidativa a mais um trago. Vindos das proximidades, dois cachorros Serra da Estrela, de rabito a dar a dar, chegam-se por perto, despertando carícias e sorrisos. Mesmo ao lado, em discreta sinfonia ancestral, a água da ribeira faz-se ouvir. Ainda faltava fazer a Rota das Faias, a caminho do Covão da Ponte, mas o dia já estava ganho.
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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

ESTAVA MADURA NO RAMO, MAS NÃO A COLHI

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AC, Romãzeira
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Sempre que posso desvio-me dos caminhos principais, apesar de, aparentemente, eles terem largueza, bom piso, luzes, sinais, câmaras, holofotes... Curiosamente é por eles que toda a gente quer passar, sempre cheia de pressa, condicionada por um qualquer chip, como se a vida se resumisse ao momento efémero da sua passagem. E como eles correm!
Eu, mortal em contramão, cada vez tenho menos pressa, confesso. Aprendi que a maturação, para se exprimir da melhor forma, requer a pacificação do tempo, ou seja, muito suor interior. 
Um destes dias, porque sim, passei junto duma velha quinta, quase abandonada. Os muros, sinal de sabedoria do construtor, mantêm uma postura digna, sem quebras, adornados com heras alimentadas pelo tempo. Espreitei. Uma romãzeira, apesar do desprezo a que parecia votada, continuava a pintalgar aquela espécie de refúgio onde, quero crer, outrora alguém descia as escadas, tranquilamente, de cesta na mão, para levar para casa aquela flor outonal.
Mudam-se os tempos e as vestes, mas a espiral das vontades parece a mesma. A minha, num primeiro impulso, foi subir o muro e colher uma romã, mas algo me prendeu. É que, cada vez o sinto mais, não é a romã que temos na mão que importa. O que faz sorrir, interiormente, é a que levamos dentro de nós.
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sábado, 30 de setembro de 2017

O MURO

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AC, Filtro outonal
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Há um sol, ao de leve, que me aquece de mansinho, como se tentasse perpetuar aquilo que é breve, alquimia de poeta que tudo quer abraçar.
Rompe a névoa, aqui e ali, pintalgando conceitos efémeros, como se tudo fosse nada. Vão-se as andorinhas, rendidas ao capricho solar, e eu para aqui fico, tentando amarrar, na tela, o intangível, como se a simplicidade do ciclo da vida fosse quadro para emoldurar.
Sento-me na pedra de granito, altaneira, filtrando a luz que se insinua nas folhas, dando-lhes uma vida única, própria de cada instante. Sinto que, para lá da sinfonia de cores, estamos mal preparados para o que se segue, queríamos a vida sempre à mercê. É por isso que olhamos com desconfiança a velhice, quase não reparando na sabedoria acumulada. É por isso que continuamos a não saber enfrentar a morte, olhos nos olhos, quando é a única certeza que transportamos a tiracolo.
Há um sol, ao de leve, que me tenta iludir na certeza, desafiando-me para a descoberta de outras certezas. E eu, eterno crente na dignidade, como se não houvesse outro rumo, continuo a investir contra o muro, partindo pedra após pedra. Talvez, quem sabe, um dia consigamos saber aquilo que andamos cá a fazer.
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domingo, 24 de setembro de 2017

RECEITA PARA LÁ DAS RECEITAS

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AC, Sebe em busca de livro de reclamações
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Não é todos os dias, mas quase, que isto de ser aprendiz tem que se lhe diga. Quando me levanto, tal o apego à vida, há sempre algo que me condiciona a mente: uma vontade de conjugar bem, a cada dia que passa, os gestos que marcam a minha presença no mundo. Não é nada de dramático, como se tudo dependesse de mim, mas algo devidamente filtrado no tempo, com o toque da simplicidade, do dever feito, como se tivesse bem presente que, dos pequenos gestos, podem germinar pequenos grandes botões de rosa.
Às vezes, reconheço, deparo-me com pessoas que só parecem reagir ao fogo e ao aço. Com o tempo, contudo, aprendi formas de as enfrentar. Sempre olhos nos olhos, nunca em tom desafiante, mas em modo invocador de afectos: dos que se exibem, na luz, mesmo que considerados insuficientes, dos que existem, na penumbra, por trás das muitas cortinas que nos talham o destino. Em modo soft, pois é claro, a não ser que a besta tresande de tal forma que, logo à partida - louvo a honestidade de carácter - fiquemos logo avisados de que, por aquelas bandas, não há terreno por arar. Por demais inculto. 
Vivo no campo, por opção, onde cada tarefa, para ser executada de forma descontraída, sem o peso dum qualquer encargo, implica comunhão com tudo o que nos rodeia. Só assim se compreende que, para aparar parte das sebes que rodeiam a casa, tenha demorado duas manhãs, sem estar a pensar no que ainda falta. E, podem crer, o gozo que isto me dá, sempre acompanhado pelo chilreio da passarada!
O sentido da vida? Cada um tem a sua receita, mas para ela ter validade tem que ser testada no caminho percorrido, sempre numa perspectiva de futuro. Fora dos roteiros oficiais, é claro.
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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O MEU POETA

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Imagem retirada do Google
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Conheço um poeta que é igual a todas as outras pessoas, afinal um poeta é uma pessoa como todas as outras. Contudo, para lá dos gestos triviais, como que refugiando-se na normalidade, há um não sei quê que o trai, talvez o olhar, como se estivesse, continuamente, à espera do seu momento de libertação. E, quando descortina algo que o cativa, que o agarra, é vê-lo partir, sem sair do mesmo lugar, como se, de repente, a realidade ganhasse novos contornos, novas geometrias, como se vislumbrasse um portal para um novo patamar. Subitamente, como se despertasse, dá-se conta de que está perante olhares que o questionam, procurando entender aquela aparente fuga. Nessas alturas apenas sorri, enquanto se despede como se levasse, a tiracolo, algo de precioso.
Conheço um poeta que parece igual a todas as outras pessoas, mas não é. Enquanto os outros tudo fazem para adoçar a realidade, adquirindo, ele tudo faz para lhe dar novos contornos, voando.
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domingo, 10 de setembro de 2017

A PEDRA

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Havia uma pedra, há sempre. Mas aquela, de tão diminuta, prendia a atenção, como se a sua pequenez tivesse algo para transmitir.
Olhei-a. Era cinzenta, baça, sem brilho, aparentemente sem nada de especial. Mas, por mais que a tentasse deixar para trás, ela parecia olhar-me, desafiando a minha percepção das coisas.
Prossegui o caminho. Quando ultrapassei a primeira curva, a pequena pedra, acomodada na mochila, parecia cantarolar. Eu apenas sorria.
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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

CRÓNICA DE FÉRIAS

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As montanhas, pejadas de refúgios e subterfúgios, ao mesmo tempo que, nos cumes, impelem ao voo para lá do horizonte, numa amálgama em que a reflexão ganha outra dimensão, fazem parte de mim, são a minha segunda pele.
De tempos a tempos, contudo, qual apelo da alma onde continua a refulgir, de forma quase indelével, mas persistente, a pegada da memória ancestral, careço de abraçar o oceano, de revigorar-me nas suas águas, deixar que, de forma despreocupada, o grande caldeirão químico onde tudo começou me relembre, de forma  profunda, adornada de poesia, o grande milagre da vida, tecido numa multiplicidade de pequenas coisas. Nesses momentos sinto-me sempre pequeno, mas duma forma maior, como se o círculo da compreensão da vida se completasse.
Este ano foram cerca de três semanas algarvias onde preponderaram o peixe - a carne foi banida - as braçadas no mar, algumas leituras, música quanto baste e... os eternos finais de tarde, numa feliz conjugação em que tempo e espaço cumpliciaram no aconchegar da alma.
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Enquanto estive ausente, e cimentando a máxima de que a vida é eterno desafio, o meu santuário natural, a Gardunha, foi palco das labaredas que, um pouco por todo o lado, estão a dilacerar o pulmão verde deste país. Tudo se renova, é certo, mas é uma dor d'alma ver desaparecer alguns dos meus recantos de eleição. E mais dói quando as razões têm a ver com um verdadeiro barril de pólvora: incúria, desleixo, incompetência e premeditação.
Na próxima Primavera, embora de forma tímida, o verde irá irromper de novo, numa eterna ode à esperança. Mas a mãe Natureza, podem crer, começa a ofegar de cansaço, farta de tanta patifaria. 

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quarta-feira, 26 de julho de 2017

ABRAÇAR, NATURALMENTE, QUANDO A ALMA SE SENTE QUENTE

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Sempre soubeste das minhas idas e vindas, da minha necessidade de questionar, de respirar, em busca de encontrar sentido em cada partícula, em cada átomo. Isso faz parte de nós, sempre fez, foi assim que construímos a nossa cumplicidade. Tu, mais exposta ao sol, nunca tiveste necessidade disso, mas sempre respeitaste, por mais efémeros, os meus mergulhos interiores.
Gosto de partidas, mas adoro as chegadas. No regresso, quase sempre à hora certa, o meu sorriso sempre deparou com o teu sorriso, os meus segredos sempre foram teus. Ontem, apesar de sorrires, havia nuvens no teu semblante. O canteiro das roseiras parecia abandonado, entregue às ervas, e na parte mais resguardada do jardim, por trás da casa, onde sempre gostámos de sentir a magia do final do dia, desta vez não havia mesas nem cadeiras.
Olhei-te nos olhos e percebi. Algo te agredira, profundamente, algo te indignara. Ainda pensei dizer-te para não te preocupares, em como era vão o eco das coisas medíocres, efémeras, mas a hora não era de palavras. Abracei, profundamente, a tua fragilidade, sabendo muito bem o quanto eras forte. Estavas apenas a precisar dum abraço.
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domingo, 23 de julho de 2017

A VOZ DOS (INCONTÁVEIS) SILÊNCIOS

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Muito da essência humana, por mais que brade a diversidade de pretensos pastores, tem a ver com sobrevivência. Ciclicamente vão aparecendo algumas vozes, inconformadas, pugnando por um patamar mais elevado, mas depressa os detentores do poder, apelando à zona de conforto das massas, reagem. Nada mais eloquente, para ilustrarmos essa ideia, que socorrer-nos das palavras do príncipe de Salina, personagem do romance "O Leopardo", de Tomasi di Lampedusa: é preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma.
Na nossa vida somos confrontados, amiudadas vezes, com situações de perfeita mediocridade, em que as instituições exigem obediência cega, por mais míope que seja a sua visão. Bem podem bradar os bem intencionados que uma sociedade só poderá evoluir se os seus membros forem pro-activos, com consciência crítica. Na prática, principalmente nos países mais solarengos, isso só nos manuais. E, desde que haja pão e circo, mais um favorzito aqui e ali, as pessoas facilmente vendem a alma ao diabo. E é vê-lo sorrir, o descarado!
O ser humano é o que é, temperado com demasiada dose de egoísmo, mas com uma parte, por mais recôndita, com necessidade de luz. Há quem diga que certos silêncios são sabedoria, que é preciso saber passar entre os pingos da chuva, mas cá para mim, eterno desassossegado, eles apenas moldam a alma no rastejar da cobardia.
Antes que seja tarde, vai sendo tempo de darmos voz aos nossos silêncios.
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sábado, 15 de julho de 2017

ETERNA FALHA

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Fotografia de AC
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Há algo que impele, para lá do torpor, 
há algo que resiste, apesar da dor, 
há esperança que se insinua, para lá da cor, 
há recobro que se aloja, seja lá como for. 
Depois... dar sentido à palavra amor.
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